A Travessia da Consciência para Além do Sofrimento. Durante séculos, celebrámos a Páscoa com o olhar preso na Cruz. Venerámos o símbolo da dor como se nele estivesse o caminho para a redenção. Mas esquecemo-nos do mais importante: Ele desceu da Cruz. Vivo. Radiante. Livre.
Hoje, somos chamados a fazer o mesmo. A Cruz não é, apenas, um pedaço de madeira no qual um corpo foi pregado. É o símbolo do aprisionamento humano à dor, ao medo, à culpa, ao sacrifício. É a identidade construída na dualidade: bom e mau, luz e sombra, certo e errado. É a ideia de que para merecer a Vida, temos de sofrer por ela.
Mas isso não é Verdade.
A Verdade está além da Cruz.
Viver na Cruz é viver em esforço.
É identificar-se com a vítima ou com o salvador.
É carregar culpas antigas, medos herdados, histórias que já não servem.
Sair da Cruz é renascer.
É deixar cair as armas, os julgamentos, as certezas.
É soltar as ideias do que é ser humano, baseadas na pequenez, no pecado e no castigo.
É recordar que somos Espírito em forma — e não a forma em sofrimento.
A mente tentará enganar-te:
“Podes ficar só com um pé na Cruz e outro fora. Já é suficiente.”
Mas não há meia-liberdade. Ou estamos crucificados ou estamos livres. O mundo tem tentado trazer a leveza da Liberdade para dentro da dor da Cruz. Mas a Liberdade não cabe aí. A Liberdade só floresce fora do sacrifício, fora da vergonha, fora do medo.
Descer da Cruz é um ato de Amor radical por ti. É ousar viver sem passado. É ousar deixar para trás tudo o que te moldou a acreditar que tens de sofrer para merecer. É o momento em que deixas de procurar fora e começas a recordar Quem Tu És.
A Ressurreição só acontece depois da descida da Cruz. Não é uma promessa futura. É um estado presente, disponível agora, neste instante em que dizes:
“Basta. Já não preciso da dor para ser Eu.”
Isabel Ferreira

